Futebol de várzea vive sua própria guerra de marcas esportivas, com menos glamour e tecnologia Exemplos dos detalhes que podem ter os uniformes: escudos, patrocinadores, grafismos...

Marketing de emboscada, estratégias para atrair clientes, busca por novas tecnologias, equacionar conforto e durabilidade. Pode não parecer, mas o mercado de materiais esportivos no futebol de várzea virou uma verdadeira guerra. Mas, no centro das ações, nada de Nike, Puma ou Adidas. As empresas envolvidas são muito mais modestas, sem o mesmo glamour, mas tem um alcance muito grande em um ambiente que envolve milhões de jogadores a cada fim de semana.
O maior exemplo desse fenômeno é a Copa Kaiser, principal torneio de futebol amador da cidade de São Paulo. Envolvendo quase 200 times só na primeira divisão, o campeonato de 2012 foi palco de uma verdadeira guerra entre as gigantes do setor.
Quem vai aparecer nas fases decisivas é a Sportação. Criada em 1987, a empresa é a maior representante das marcas especializadas em futebol de várzea. Foi ela que produziu metade dos uniformes dados pela organização do torneio a cada time participante e, por imposição do regulamento, é a sua marca que está estampada nas camisas dos quatro semifinalistas.

FABRICANTES JÁ USARAM PALHA DE AÇO E ESCOVA DE DENTES PARA DESENHOS

Milton Flores/UOL
Atualmente, a customização dos uniformes para a várzea ficou fácil. “O cara chega com o desenho, nós colocamos no computador, imprimimos e pronto. Mas antigamente era bem complicado”, lembra Nivaldo Tonon, da Sportação.
Algumas técnicas usadas antes das grandes impressoras envolviam materiais bizarros, como palha de aço e escovas de dente, e eram verdadeiras obras de arte. “Para conseguir um efeito de sombra, por exemplo, nós misturávamos nanquim com cola branca. Essa mistura era aplicada no tecido. Então, esfregávamos com Bombril e a sombra aparecia”, lembra.
A escova de dente era usada para a obtenção do efeito de retícula, aqueles pontinhos. A escova era molhada na tinta e o aplicador espirrava a tinta no tecido. “Era coisa de artista. E tudo o que as pessoas pediam era possível, desde que o desenhista dissesse que poderia fazer”.

Marketing de emboscada
A preferência das equipes, porém, está com outra empresa. A CM Esporte, também criada em 1987, era a marca usada pela maior parte dos times que chegaram até as quartas de final. Muito mais do que as camisas de jogo, a empresa também fornece bolsas, roupas de apresentação para os atletas e até mesmo meiões personalizados.
“O que faz a diferença é a personalização dos produtos. Conseguimos fazer tudo com a nossa cara. E a qualidade é muito grande”, explica Sérgio Ricardo, presidente do Pioneer, campeão da Kaiser em 2011, e que tem uma parceria com a CM para a venda de produtos oficiais.
A presença da marca na Copa Kaiser, porém, não é exatamente bem vista. Fundador da empresa, Carlos Mendes assume que usa a exposição do torneio para divulgar sua marca. “No início, nós fomos atrás dos clubes e oferecemos nossos serviços. Até hoje, ainda ajudamos equipes. Para alguns times chave, chegamos até mesmo a fornecer uniformes a preço de custo”, conta.
Uma de suas iniciativas foi fornecer aos seus principais clientes uma grande bandeira, em que o logo de sua empresa aparecia ao lado do nome do time e de seus patrocinadores. Só uma delas, porém, foi fabricada: “A organização vetou, alegando que estávamos aproveitando o campeonato para nos promover. Eu não vejo nenhum problema nisso, não acho que estávamos infringindo nenhuma regras, mas respeitamos a decisão”, diz.
A obrigação de uso do uniforme da Sportação, aliás, fez com que um dos semifinalistas da Copa Kaiser fizesse um protesto velado. O Turma do Baffô entrou em campo no último domingo, na semifinal contra o Noroeste, com um colete da marca Deka, que patrocina alguns times do futebol profissional. “A empresa é amiga do time, sempre que precisamos. Agora, em uma fase decisiva, decidimos fazer essa homanegem”, explicou Claudinei Rosa, o presidente do clube.
Conforto x durabilidade
Deixando a polêmica de lado, uma característica chama muito a atenção no futebol de várzea. Os uniformes customizados costumam contar com muitos detalhes. Na maior parte das vezes, são mais elaborados até mesmo do que os uniformes do futebol profissional, contando com o desenho de mascotes, além de linhas e emblemas sofisticados.
E é justamente essa característica particular que traz, para a várzea, uma questão que, até agora, segue com a resposta negativa: É possível unir essa criatividade aos materiais mais modernos disponíveis no mercado? Até agora, as empresas não conseguiram unir as duas características.Os materiais que os clubes profissionais usam, atualmente, é a poliamida. Só que para a várzea ela não funciona. Você não pode colocar os desenhos, as linhas, as pinturas que a maioria exige. Então, somos obrigados a usar o polyester. Mesmo usando o tratamento de dry-fit, não conseguimos os mesmos resultados que os tecidos mais tecnológicos”, conta Nivaldo Tonon, da Sportação.
Outro problema a ser discutido é a equação entre durabilidade e conforto. E, nesse assunto, os atletas acabam saindo perdendo. “O problema para os times amadores é que os uniformes precisam durar muito. No profissional, eles fazem um jogo por camisa. Na várzea, essa camisa precisa durar anos. E como você faz para esse produto durar? Usa um tecido mais grosso, que acaba sendo menos confortável para os atletas. Então, essa é uma questão que sempre colocamos para os clubes. E são eles que escolhem que material usar”, explica Tonon.
Inovações
Mesmo com essas limitações, as inovações no mercado seguem aparecendo. E, nesse quesito, a Sportação é a pioneira. Foi ela que criou, por exemplo, as camisas para as torcidas. “Eu tenho um funcionário que é muito envolvido nesse mundo do futebol amador. Um dia, ele pensou em colocar frases nas camisas, no lugar de números, para que a diretoria também usasse o uniforme. Foi uma iniciativa que deu muito certo”, lembra Tonon.
As novas camisas não poderiam ter vindo em hora melhor: “Naquele ano, as vendas estavam caindo e essa nova fonte de receita foi muito bem vinda. Hoje, as camisas de torcida representam uma fatia importante nos negócios”, completa.
Outra novidade foi criada pela CM Esporte: as lojas itinerantes. Em parceria com o Ajax, da Vila Rica, um dos times com mais torcida na várzea, e com o Pioneer, a empresa organizou uma loja itinerante, que é montada em cada campo onde a equipe vai jogar. Vende produtos variados, de camisetas e bermudas com as cores do clube (e os logos da CM e dos patrocinadores) até chinelos e canecas.