Branco em time de negros, ex-goleiro conta causos do futebol na era do ApartheidGary Bailey defendeu o Kaizer Chiefs, da África do Sul, durante o regime de segregação

Paulo Passos
Do UOL, em São Paulo

MANCHESTER, COPA DE 86 E O QUASE FIM

Nascido na Inglaterra, Gary Bailey se mudou para a África do Sul quando tinha seis anos, pois seu pai, também goleiro, foi contratado por um time local. Estudou e começou a jogar futebol no país. Aos 20 anos, voltou para a Inglaterra após ser contratado pelo Manchester United. No gigante inglês atuou durante 10 temporadas e esteve na Copa de 1986 com a seleção inglesa. Foi no Mundial que teve uma séria lesão no joelho, que quase encerrou a sua carreira. Após duas temporadas tentando voltar, chegou a anunciar sua aposentadoria. Voltou atrás com o convite do Kaizer Chiefs. Depois de largar o futebol, cursou administração e foi consultor da organização a Copa de 2010. Hoje vive de palestras, que tratam sobre a experiência sul-africana de sediar o torneio.

O ex-jogador esteve em São Paulo nesta semana para falar sobre a experiência da Copa do Mundo na África do Sul para empresários brasileiros. Compromissos na Inglaterra o impediram de assistir ao amistoso do Brasil contra os sul-africanos, nesta sexta-feira, no Morumbi.
No Kaizer Chiefs, que divide com o Orlando Pirates a fama de clube mais popular da África do Sul, Gary atuou por dois anos, venceu um título nacional e se aposentou em 1990. Um ano depois, todas as leis racistas que ainda vigoravam no país foram revogadas.
“Eu vivi num tempo com duas sociedades separadas. Eu convivi com as duas durante esse tempo. Era uma realidade dura, mas me sinto um privilegiado”, conta o ex-goleiro. “Como estudei numa escola para brancos não conhecia a cultura africana. Na época de estudante era tudo separado, escolas para brancos, escolas para negros. O futebol me fez conhecer uma realidade diferente, que estava ao lado, no mesmo país”, completa.
“Eu não conhecia a cultura africana até jogar no Chiefs. Eu entendi um pouco mais sobre como eles viam o mundo, suas superstições. Foi fantástico. Vivi tudo isso na época um pouco antes do Nelson Mandela ser solto. Foram anos tensos”, conta o ex-goleiro.

Festa no gueto, silêncio em casa

Enquanto jogava no Kaizer Chiefs, Gary era ídolo da torcida, formada apenas por negros. Quando ia treinar em Soweto, distrito que ficou famoso por ser o berço de resistência ao Apartheid, era abordado por fãs na rua. Onde morava, entretanto, no bairro Sandton, em Joanesburgo, era um ilustre desconhecido.
É que o futebol era um esporte de negros na África do Sul. Entre os brancos, o rúgbi é que tinha mais seguidores.

O preconceito era maior dos brancos com os negros. No futebol, entre os negros não sofri nada muito grave. Eu era bem tratado
“Em 1989, disputei uma final. Tinham mais de 100 mil pessoas no estádio. Era o clássico entre Kaizer Chiefs e Orlando Pirates, o maior do país. Soweto era uma festa só depois da partida, que vencemos. Quando eu voltei para a minha casa, num bairro branco, não havia ninguém nas ruas, ninguém falando sobre o jogo. Parecia outro país, um lugar distante de onde eu tinha jogado horas antes. O futebol era um esporte só dos negros”, lembra.
Gary defende que hoje a África do Sul é um país completamente diferente. Segundo ele, a realização da Copa do Mundo em 2010 foi um marco desse novo país, já livre da segregação.
“Foi o evento das nossas vidas. Era esse o slogan e foi a verdade. Claro que tivemos alguns problemas, mas acho que a imprensa fez eles se transformarem maiores do que eram”, diz.
O ex-jogador, porém, admite que o governo da África do Sul sofre para sustentar estádios construídos para o Mundial e que não têm utilidade. “Temos quatro ou cinco estádios que não têm função, porque não há clubes nas regiões, mas aqui no Brasil será diferente. Vocês ficarão com um legado importante”, defende.

ENTENDA O QUE FOI O APARTHEID

O termo Apartheid significa vidas separadas em africandêr, o idioma dos descendentes de holandeses. E era justamente isso que pretendiam as autoridades da ex-colônia britânica quando foi criado o regime de segregação racial. Oficialmente, ele começou no final da década de 40. Na prática, o início foi bem antes. Desde a formação do país, as coisas já eram divididas. De um lado, brancos, do outro, negros, mestiços e demais etnias. Foi em 1948 que a separação virou lei e a maioria da população do país, cerca de 20 milhões de pessoas, passou a ser legalmente apontada como cidadãos de segunda categoria. Na legislação, o casamento entre negros e brancos, por exemplo, foi considerado crime. As cidades foram divididas em áreas para europeus e não europeus. O serviço público e até mesmo os bebedouros também. Bancos nas praças e lugares em ônibus eram de exclusividade da população branca. Durante o Apartheid, houve um movimento de resistência liderado por Nelson Mandela (foto). Preso por 27 anos, ele virou presidente na primeira eleição democrática do país, em 1994.