Branco em time de negros, ex-goleiro conta causos do futebol na era do Apartheid
Paulo Passos Do UOL, em São Paulo
Em 1988, Gary Bailey era um goleiro de 30 anos que já havia se aposentado no futebol após uma grave lesão, mas tentava retornar aos gramados. A desconfiança quanto à sua condição física poderia ser uma barreira em qualquer clube que quisesse contratá-lo. No Kaizer Chiefs, de Joanesburgo, entretanto, o problema maior era outro. Loiro, de olhos azuis e pele clara como papel, o inglês seria o único branco num clube de jogadores e torcedores negros, e isso numa África do Sul ainda sob o regime do Apartheid. Os dirigentes do clube de Soweto ignoraram o preconceito e o contrataram mesmo assim.
“Foi fantástico, foi um privilégio como experiência de vida. Naquela época, pessoas brancas não tinham permissão de entrar em áreas de negros como Soweto. E eu entrava. Onde eu vivia, em um bairro de brancos, meus vizinhos e amigos diziam: ‘você vai morrer indo nessas regiões’. E eu dizia: ‘acabei de voltar do trabalho, do treino e estou bem”, conta rindo o hoje consultor de empresas em entrevista ao UOL Esporte.
“Foi fantástico, foi um privilégio como experiência de vida. Naquela época, pessoas brancas não tinham permissão de entrar em áreas de negros como Soweto. E eu entrava. Onde eu vivia, em um bairro de brancos, meus vizinhos e amigos diziam: ‘você vai morrer indo nessas regiões’. E eu dizia: ‘acabei de voltar do trabalho, do treino e estou bem”, conta rindo o hoje consultor de empresas em entrevista ao UOL Esporte.
MANCHESTER, COPA DE 86 E O QUASE FIM
Nascido na Inglaterra, Gary Bailey se mudou para a África do Sul quando tinha seis anos, pois seu pai, também goleiro, foi contratado por um time local. Estudou e começou a jogar futebol no país. Aos 20 anos, voltou para a Inglaterra após ser contratado pelo Manchester United. No gigante inglês atuou durante 10 temporadas e esteve na Copa de 1986 com a seleção inglesa. Foi no Mundial que teve uma séria lesão no joelho, que quase encerrou a sua carreira. Após duas temporadas tentando voltar, chegou a anunciar sua aposentadoria. Voltou atrás com o convite do Kaizer Chiefs. Depois de largar o futebol, cursou administração e foi consultor da organização a Copa de 2010. Hoje vive de palestras, que tratam sobre a experiência sul-africana de sediar o torneio.
O ex-jogador esteve em São Paulo nesta semana para falar sobre a experiência da Copa do Mundo na África do Sul para empresários brasileiros. Compromissos na Inglaterra o impediram de assistir ao amistoso do Brasil contra os sul-africanos, nesta sexta-feira, no Morumbi.
No Kaizer Chiefs, que divide com o Orlando Pirates a fama de clube mais popular da África do Sul, Gary atuou por dois anos, venceu um título nacional e se aposentou em 1990. Um ano depois, todas as leis racistas que ainda vigoravam no país foram revogadas.
“Eu vivi num tempo com duas sociedades separadas. Eu convivi com as duas durante esse tempo. Era uma realidade dura, mas me sinto um privilegiado”, conta o ex-goleiro. “Como estudei numa escola para brancos não conhecia a cultura africana. Na época de estudante era tudo separado, escolas para brancos, escolas para negros. O futebol me fez conhecer uma realidade diferente, que estava ao lado, no mesmo país”, completa.
“Eu não conhecia a cultura africana até jogar no Chiefs. Eu entendi um pouco mais sobre como eles viam o mundo, suas superstições. Foi fantástico. Vivi tudo isso na época um pouco antes do Nelson Mandela ser solto. Foram anos tensos”, conta o ex-goleiro.
Festa no gueto, silêncio em casa
Enquanto jogava no Kaizer Chiefs, Gary era ídolo da torcida, formada apenas por negros. Quando ia treinar em Soweto, distrito que ficou famoso por ser o berço de resistência ao Apartheid, era abordado por fãs na rua. Onde morava, entretanto, no bairro Sandton, em Joanesburgo, era um ilustre desconhecido.
É que o futebol era um esporte de negros na África do Sul. Entre os brancos, o rúgbi é que tinha mais seguidores.
O preconceito era maior dos brancos com os negros. No futebol, entre os negros não sofri nada muito grave. Eu era bem tratado
Gary defende que hoje a África do Sul é um país completamente diferente. Segundo ele, a realização da Copa do Mundo em 2010 foi um marco desse novo país, já livre da segregação.
“Foi o evento das nossas vidas. Era esse o slogan e foi a verdade. Claro que tivemos alguns problemas, mas acho que a imprensa fez eles se transformarem maiores do que eram”, diz.
O ex-jogador, porém, admite que o governo da África do Sul sofre para sustentar estádios construídos para o Mundial e que não têm utilidade. “Temos quatro ou cinco estádios que não têm função, porque não há clubes nas regiões, mas aqui no Brasil será diferente. Vocês ficarão com um legado importante”, defende.

