O que faz a militante torturada no calabouço torcer pelo Brasil? O que faz presos e carcereiros comemorarem juntos? Que maluquice é essa capaz de unir tucanos e petistas, corintianos, são-paulinos, palmeirenses, santistas, rubro-negros, vascaínos, tricolores, botafoguenses, gremistas, colorados, cruzeirenses e atleticanos, baianos, cearenses,? Capaz de interromper assaltos, irmanar bandido e polícia, amigar juízes e réus, produzir resenhas entre intelectuais e antas de carteirinha? Que feitiço é esse capaz de hipnotizar quase 200 milhões de sujeitos em torno de uma camisa?
Você já se perguntou por que é capaz de se emocionar com futebol? Por que fica alegre quando um daqueles valetes chuta uma bola de couro sintético dentro de uma rede embaixo de traves? Você já se perguntou por que o brasileiro é o único sujeito que exige couvert artístico de seus 11 apóstolos? Por que para a seleção não basta ganhar – é necessário encantar?
Hoje começa a XX Copa do Mundo. Daquela outra vez, quando esteve por aqui, ela tinha outros apelidos. Era “Campeonato Mundial de Futebol”. A seleção era scratch. O time era team. O futebol, afinal, era football. Hoje, todos os dedos indicadores do mundo apontam para o Brasil. Do balcão de boteco à mesa redonda, um ligeiro favoritismo se ensaia e um pachequismo surdo começa a se insinuar.
É meio singelo dizer isso – e talvez o torcedor não queira ouvir. Mas... o resultado importa menos. Tudo aquilo que foi prometido – e cumprido ou descumprido – importa menos. A jornada importa mais. Receber o mundo, e viver essa experiência, importa mais. É uma oportunidade única e fantástica. Ver camisas e bandeiras de cores distintas, povos diferentes, na sua rua, na sua cidade – é algo que dificilmente você viverá de novo nesta vida.
Ah, sim, o Rio terá as Olimpíadas. Mas São Paulo terá só um pedacinho. E Recife. E BH. Não será algo tão nacional. A Copa está aqui, perto da gente, pegando táxi, pintando na rua, colorindo avenidas com milhares de torcedores que vem escrever suas pequenas histórias.
A Copa instantânea, das redes sociais, das notícias onipresentes, das piadas por minuto, chegou. A Copa das Copas – no fundo – é a Copa que viveremos – e contaremos para filhos e netos proverbiais – e lembraremos: um dia vi Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, vi Neymar, que era um garoto – e vi aquele jogo sensacional que o país tal perdeu depois de um lance inacreditável.
Eu vi o erro de arbitragem inesquecível e o golaço que fez história. Eu vi bósnios e croatas se abraçando, nigerianos e argentinos gritando, o iraniano beijando a americana na noite. Eu vi o italiano suando em Manaus e o português fazendo rir em Salvador. Eu vi o alemão rolando na praia e o uruguaio perdido na Paulista. Eu vi argentinos gozando brasileiros que gozavam argentinos que gozavam brasileiros. Eu vi os ingleses branquelos na praia e atropelei um holandês com kite surf.
Eu fiz piada com a Copa – e ri de tantas outras que ouvi. E então, em 2078, na terceira Copa no Brasil, Neymar Junior Neto, estreará no recém-reformado Maracanã para 12 mil pessoas e 37 mil clones – e a cobertura do estádio – que custou 357 milhões de reais galáticos – terá um pequeno vazamento. Mas, pelo menos, o Colosso de Itaquera terá sido reinaugurado a tempo. Ufa. Rir de nossas mazelas, enfim, é o que nos faz brasileiros.
Ah, tem a Fifa, claro, e os cartolas... mas eles estão nos gabinetes com champanha, ar-condicionado e limusines. A Copa de verdade acontece aqui fora – no trem, na arquibancada, na rua, na praia, na mesa do bar. Enfim..., vai ter Copa. Começa hoje. E combinemos que proibido é proibir. Quem quiser protestar – proteste. Quem quiser torcer – torça. Quem quiser aparecer – é tempo de melancismo encefálico – que apareça. Quem quiser ir ao cinema ver filme vietnamita – por favor vá. Quem quiser bater nos outros – que veja o sol nascer quadrado.
Consta que está liberado esse negócio de gritar Brasil. De cantar. De torcer. Se emocionar. Chorar. Sorrir. Consta que é permitido até ganhar. Mas... se perdermos – o Brasil continuará Brasil - pentacampeão mundial de futebol e... que venha a Taça do Mundo!
Para o encontro com os croatas, salvo informação de última hora, a seleção brasileira terá o concurso de Oscar – sendo a seguinte sua constituição definitiva:
Júlio César, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo
Luiz Gustavo, Paulinho e Oscar; Hulk, Fred e Neymar.
Júlio César, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo
Luiz Gustavo, Paulinho e Oscar; Hulk, Fred e Neymar.